O escândalo do Facebook - Ideias Antenadas
O escândalo do Facebook

O escândalo do Facebook não é propriamente um escândalo no sentido de uma novidade bombástica que nos revela um mundo antes desconhecido e causa espanto e furor. O escândalo do Facebook pode ser tratado como tal por sua dimensão (capturou dados pessoais de pelo menos 50 milhões de usuários da plataforma) e por seu impacto (ajudou, entre outras consequências, a eleger Donald Trump para a Casa Branca), mas não por desnudar um universo ignorado. Ao contrário: o Facebook foi criado para fazer exatamente aquilo que, agora, é acusado de ter feito.

O Facebook ganha dinheiro de uma maneira engenhosa, embora simples de ser entendida. Trocando em miúdos: o modelo de negócios da plataforma consiste em atrair o maior número possível de usuários, obter deles uma vasta gama de dados pessoais, criar um sistema capaz de explorar os interesses dessa massa de usuários e então vender o conjunto para o uso de empresas e anunciantes. Com isso uma empresa compradora do material fornecido pelo Facebook consegue dirigir sua propaganda a potenciais clientes, com uma precisão e um apelo inexistentes antes do surgimento das redes sociais. É assim que o Facebook ganha dinheiro e, por isso, pode oferecer-se aos usuários sem custo, como uma plataforma gratuita. É uma estratégia usada, com algumas variações, por quase todas as empresas de mídia. A diferença do Facebook e de seus pares do mundo digital, como o Google e o Twuitter, é que ele consegue direcionar a mensagem com uma precisão cirúrgica.

Essa estratégia tem sido bem-sucedida desde que o Facebook foi criado, em 2004, nos dormitórios da tradicional Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, por Mark Zuckerberg em conjunto com três amigos: o brasileiro Eduardo Saverin e os americanos Chris Hughes e Dustin Moskovitz.

Desde sua origem, a rede social tornou-se uma máquina de ganhar dinheiro. Quando abriu capital, em maio de 2012, a empresa foi avaliada em US$72 bilhões. Em quase seis anos, esse valor multiplicou-se quase por oito vezes. Em 2017, a companhia faturou US$40,6 bilhões e lucrou US$15,9 bilhões. Nada parecia parar Zuckerberg. Tanto que se alimentou, no ano passado, a ideia de que ele poderia se candidatar à presidência dos Estados Unidos, em 2020.

No caso que está chamando a atenção do mundo, sobretudo dos americanos e ingleses, afetados de modo direto pelas notícias de fraude, o Facebook fez exatamente o que vem fazendo desde sempre. A diferença é que, desta vez, não se acertou com uma iniciativa comercial, mas com um bunker político-eleitoral chamado Cambriclge Analytica. Com sede em Londres e ligado a Tromp o bunker usou os dados que capturou no Facebook para manipular o voto de milhões de eleitores nos Estados Unidos e, possivelmente, na Inglaterra. Daí o escândalo: em vez de manipular o consumo, manipulou o voto.

As informações foram obtidas entre junho e agosto de 2014 através de um aplicativo desenvolvido por Aleksandr Kogan, então pesquisador e psicólogo da Universidade de Cambridge. O Facebook concordou que o aplicativo fizesse a coleta de dados em sua plataforma para fins acadêmicos. Mas Kogan foi além. Ele vendeu as informações para a consultoria de marketing político Cambridge Analytica (CA), uma empresa que tinha em seus quadros Steve Bannon ,ex-estrategista-chefe da Casa Branca no governo Trump ,  fundador do site de ultradireita Breitbart News. A CA recebeu também US$15 milhões do bilionário americano Robert Mercer, um dos principais financiadores do partido Republicano e do movimento conservador de direita dos Estados Unidos.

O programa criado por Kogan foi chamado de This is Your Digital Life (Esta é a sua vida digital, na tradução do inglês) e funcionava como uma das centenas de pesquisas e testes existentes na rede social. A aplicação analisava o perfil do usuário e, então, determinava se a pessoa era extrovertida, alegre, se gostava de um determinado assunto, entre outras características. Para fazer isso, os usuários precisavam autorizar o aplicativo a vasculhar os seus perfis e, portanto, obter dados publicados por eles em suas páginas no Facebook.

Pouco mais de 270 mil pessoas usaram o aplicativo em troca do pagamento de pequenas quantias. Além de colocar as mãos em nomes, idades, profissões, postagens, curtidas, fotos, vídeos e outros dados dos internautas que realizavam o teste, o software também vasculhava essas mesmas informações dos amigos que essas pessoas tinham na rede social. Detalhe: sem a autorização deles. Com isso, a CA conseguiu montar, de forma ilegal, um banco de dados com 50 milhões de pessoas. O passo seguinte foi cruzar essas informações com registros eleitorais americanos para criar o perfil psicológico desse contingente e enviar propaganda com base em seus medos, preferências religiosas, políticas e culturais.

Foi dessa forma que foi criada uma “máquina cultural” capaz de manipular a opinião pública e influenciar as eleições presidenciais americanas de 2016 e os debates do referendo do Brexit, quando o caso veio à tona, revelado pelo cientista de dados Christopher Wyle, um ex-funcionário da CA, o mundo do Facebook, literalmente, caiu. Em quatro dias, seu valor de mercado derreteu quase US$ 60 bilhões, passando de US$ 537,7 bilhões para US$ 479 bilhões, na quinta-feira, 22 de março.

Zuckerberg ficou quatro dias “desaparecido”, nem mesmo seus funcionários o viram pelos corredores do quartel-general da companhia, em Menlo Park, no coração do Vale do Silício, nos Estados Unidos. Quando rompeu o silêncio, fez um mea culpa sobre o episódio. ”Eu sinto muito que isso tenha acontecido”, disse Zuckerberg, em entrevista à emissora americana CNN, na quarta-feira, 21 de março.

“Esse talvez tenha sido o maio erro que já cometemos. ” Em uma longa nota publicada em seu perfil no Facebook, ele foi além. “Temos a responsabilidade de proteger seus dados, e, se não pudermos fazer isso, não merecemos servir vocês”, escreveu ele, no mesmo dia.

A vigilância, de eleitores e autoridades, é um dado essencial para que o Facebook e seus clientes não façam no Brasil o que já são acusados de fazer lá fora: ameaçar a democracia, com a manipulação das vulnerabilidades dos usuários eleitores, conjugada com a desastrosa disseminação de notícias falsas.

 

 

 

 

 

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